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Millennials. O carimbo invisível mas real que nenhum dos jovens, tal como eu, nascidos na década de 90, comprou ou pediu que lhe colocassem. O estereótipo mais fácil de associar aos putos de vinte e poucos anos que, tal como eu, tiveram o azar cósmico de nascer numa faixa do tempo em que, felizmente, grandes avanços tecnológicos permitiram a construção de uma sociedade mais informada, mais inovadora e, em suma, mais desenvolvida nos últimos vinte, trinta anos. Em consequência disso, sem dúvida que temos hoje uma vida mais sustentável e próspera para todos os seres portadores de massa cinzenta e racionalidade assumida como existente. Uma infinidade de opções, antes impensáveis, que nos torna cada vez mais aptos a responder aos desafios do presente e do futuro.
Podia, de facto, ter nascido numa outra época. Para azar meu, enquanto viajei nove meses no ventre da Senhora que me trouxe ao mundo, não me chegou nenhum catálogo para poder comodamente agendar o dia em que, pela primeira vez, iria vislumbrar a luz do sol. Escusado será dizer que também não pude de nenhuma maneira ter voto na matéria no momento em que foi concebido o projecto da minha existência. De facto, tudo me leva a crer que, das duas, uma: ou nasci na geração errada ou simplesmente são os outros que estão errados. Que outros são estes? Não sei nem me interessa quantifica-los. Mas sei quem são. Falo das pessoas à minha volta que, em conversas no café, teimam em fazer-se ouvir num volume não muito controlado que, hoje em dia, a insegurança e a violência são sobretudo resultado de uma geração recente que não conhece o que é o empenho e que, só com muito esforço, consegue dizer o alfabeto de A a Z e os números de 0 a 9. Falo de todas as pessoas que assumem a priori que o facto de ter crescido num tempo em que a internet se tornou uma ferramenta adquirida à partida para as pessoas que tiveram felizmente essa hipótese, inviabiliza a capacidade de compreendermos que, nesse mundo, reinam também toneladas de desinformação, especulação e perigos nem sempre à vista. Falo daqueles que assumem que eu, tendo crescido ao mesmo tempo a que assisti ao boom das redes sociais como o hi5 e o Facebook, me resumo a uma simples foto de perfil onde, todos quantos queiram, me podem catalogar como feio ou bonito. Falo de todos aqueles que, sabendo da minha idade, assumem por defeito que o que foi realmente importante para mim durante os tempos de Faculdade foram as sucessivas noites de bebedeira e tabaco.
A essas pessoas, vou dar-vos várias novidades. Não bebo, nem fumo. Vou dar-vos outra novidade (esta sim, acredito que possa ser bem mais chocante!). Eu sei ler. E-u s-e-i l-e-r (e também sei soletrar, viram?!). Melhor ainda: eu sei escrever. Sim, falo a sério! Leio jornais todos os dias e não me limito a ver o “Record” ou “A Bola”. Sei o que é o PIB e sei que Portugal fica na cauda sudoeste da Europa. Felizmente, tive a sorte de poder estudar no Ensino Superior. Sim, pessoas, é verdade. Não é só “no vosso tempo” que se tinha a noção de que o trabalho é necessário para podermos viver. Mas se queremos viver com alguma qualidade e, tendo hipóteses para o podermos assegurar, então façamos por isso. A formação e a aprendizagem contínua permitem hoje abrir-nos portas que não sonhávamos. Sim, eu tenho um curso superior. E sim, até que as minhas forças se esgotem, tudo farei para ter o meu segundo diploma na mão.
Acreditem ou não, pessoas, não era só no vosso tempo que os valores fundamentais se baseavam na persistência, na dedicação e no espírito de sacrifício. Tal como vocês, eu e uma grande fatia da população juvenil do nosso tempo – bem maior do que aquilo que vocês alguma vez possam imaginar – temos valores. Valores pessoais, valores profissionais. Nós também temos bons valores. Nós também merecemos o direito ao benefício da dúvida e à hipótese de podermos demonstrar o que de bom podemos trazer a este mundo e às pessoas que nele habitam. Não nos metam todos num mesmo saco. Não nos colem à cabeça uma etiqueta instantânea só porque ainda não temos rugas na cara ou uma barba proeminente. Estereótipos são cada vez mais perigosos e, acima de tudo, injustos. Tal como eu tenho a perfeita noção de que, felizmente, uma parte considerável da espécie humana tem bom senso, tenham também o mesmo discernimento de compreender que todos merecemos as mesmas hipóteses em todos os aspectos da vida, quer tenhamos ou não assistido à queda do muro de Berlim ou à revolução de Abril.
Dêem-nos hipótese de sermos nós próprios. Dêem-nos uma hipótese.

22/09/17

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O tempo do Amanhã

A escala em que medimos o nosso tempo está a mudar. Cada vez mais deixaremos de dizer que estivemos neste ou naquele sítio num dado dia, num determinado mês, em certo ano. A expressão de amanhã tenderá a ser “há três atentados atrás, eu estava naquele lugar“.

Conseguir racionalizar o Amor é como pedir a Deus que exista.

20/01/17

Basta existirmos para que falem de nós.

29/02/16

Pessoas

Pessoas há que não falam.
Pensam e calam-se.
Pessoas há que fingem.
Sempre sentem, mas calam-se.

Pessoas há até que duvidam.
Perguntam-se e calam-se.
Pessoas há que dão tudo.
Pouco recebem, mas calam-se.

Pessoas há que não dão nada.
Tudo esperam e falam.
Pessoas há que querem mais além.
Sem saberem que apenas merecem desdém.

Pessoas há como estas ou outras.
E eu certamente uma delas.
Se destas ou outras quaisquer…
Interessará sequer saber?

30/07/16

Um poema.

“Desejo que você
Não tenha medo da vida, tenha medo de não vivê-la.
Não há céu sem tempestades, nem caminhos sem acidentes.
Só é digno do pódio quem usa as derrotas para alcançá-lo.
Só é digno da sabedoria quem usa as lágrimas para irrigá-la.
Os frágeis usam a força; os fortes, a inteligência.
Seja um sonhador, mas una seus sonhos com disciplina,
Pois sonhos sem disciplina produzem pessoas frustradas.
Seja um debatedor de ideias. Lute pelo que você ama.”

Augusto Cury
(Brasil, 1958)

Uma fome de vida

Olá, olá, olá! Muitas semanas sem nada dizer e saudades imensas de algo aqui poder escrever. Trabalho, Faculdade e outras coisas de responsabilidade indiscutível têm-me privado de publicar neste espaço. O que não significa que não ande a aprontar coisas. E por aprontar, entenda-se, escrever, naturalmente! A minha assiduidade tem sido tão ínfima que deixei até passar uma data que não costumo deixar em branco, perdida nas efemeridades do tempo.

Falo, pois, dos 6 anos deste 24. Consigo, por norma, descortinar com uma antecedência razoável o momento a partir do qual algo no meu percurso deixa de fazer sentido. Todavia e, pese embora o enorme interregno que marcou os meus últimos meses nesta minha casa, continua a fazer um sentido absolutamente pleno nas profundezas da minha massa cinzenta, alimentar de palavras nem sempre muito doces esta minha fome. Uma fome de letras. Uma fome de ideias. Uma fome de criar. Uma fome de vida.

Um óptimo dois mil e dezasseis a todos!

1888-1935

 

Oitenta anos sobre o fim carnal do Maior de todo o sempre.

Fernando Pessoa
[Lisboa | 13/06/1888 – 30/11/1935]

Onde ficou a Democracia?

Começou hoje o debate do programa do Governo na passada semana empossado, sabendo-se de antemão que terá vida curta.

Um Governo cujo programa foi sufragado pelo povo, respondendo a uma questão simples e basilar na história democrática portuguesa. “Eleições para a Assembleia da República – Círculo Eleitoral de Lisboa”. Foi este o título que encabeçou o meu boletim de voto. Não me foi colocada, ao contrário das leituras de grande parte da sociedade civil, nenhuma questão como “Quem não quer ver governar Portugal?” ou, até mesmo, “Quem não quer ver representado na Assembleia da República?”.

Tenho guardado para mim aquilo que realmente penso acerca da subversão institucional que se aplicou ao acto eleitoral de 4 de Outubro. Ganhou uma coligação de partidos que, quer se goste ou não, foi a que expressou a maior percentagem do eleitorado português. Sem apelar a relatividades ou a absolutismos, foi esta a vontade popular e a que incontestavelmente totalizou mais votos.

Mas estas foram eleições de uma nova estirpe. Nasceu agora outro conceito de eleição. Um conceito que renuncia de forma cabal à Democracia e a todos os fundamentos que a civilização moderna fez erguer. Um conceito de eleição que se cria a partir de cinzas sedentas de poder de instituições já por si, por motivos vários, desacreditadas.

Fazem-se eleições porque sim. Vencer ou perder, não interessa. Quem ganha, não governará. Ergue-se a lógica de uma negatividade que, somada grão a grão, derruba o poder legislativo, num golpe legalmente constitucional mas ferido de morte na legitimidade política e na voz daqueles que resolveram ir às urnas expressar um sentido ideológico distinto.

Hoje, no primeiro dia de debate do ainda governo em funções, o secretário-geral do Partido Socialista resolveu não tecer uma única palavra no plenário. Um pouco à imagem do seu contínuo e profundo desrespeito por aquilo que é o dever do decisor político, quanto mais não seja exercendo o seu mandato de deputado que lhe fora conferido no acto eleitoral.

Contas feitas (e muitas outras por fazer nos próximos tempos), assistiremos amanhã à demissão de um Governo sufragado pelo povo, à revelia de um acordo refém de ideais revolucionários.

Questiono a veracidade de algumas notícias levadas a público, nomeadamente no que toca à descida total da sobretaxa em sede de IRS e ao aumento do salário mínimo nacional para cerca de 600 euros. Medidas que, anulando qualquer ironia, obviamente só poderão ser bem recebidas pelo povo português. No entanto, e fazendo um exercício algébrico simples, percebo também que o aumento do salário mínimo nacional actual na ordem dos 505 euros para os referidos 600 euros, resulta num brutal aumento de despesa do Estado. Se, por outro lado, as receitas não acomodarem estes incrementos nas despesas, não é difícil para mim lembrar-me de um certo dia. Estávamos em Abril de 2011.

E agora aqui estamos.

Muitos me sorriram no dia 4 de Outubro ao mesmo tempo que me diziam “Espero que tenhas votado bem.”

Votei, pois. Votei na Coligação Portugal à Frente, seguindo os meus ideais.

É que, de facto, é para mim isto a Democracia. Dar voz à vontade do povo. E isso não foi feito.