Espelhos de Nós

Diante de um espelho, todos nós, de tão diferentes que somos, acabamos por ser iguais. Um espelho significará sempre um mero reflexo do que somos, por ventura fomos, mas nunca o que seremos. Um espelho esboçará sempre a imagem possível em certo instante ou, pelo oposto, mostrará aos nossos olhos o quão impossível é uma certa ideia de se tornar real. Algo que esse tal espelho nunca nos poderá mostrar será até onde poderemos chegar. Até porque, para o bem e para o mal, para nosso enorme gáudio ou profunda apreensão, ele só nos transmite o presente.

Mas – espelhos à parte – a verdade é que é possível viver sem espelhos, sejam eles tão literários quanto eu quis que eles fossem nestas linhas ou meramente produtos físicos que mostram o quanto crescemos em altura desde crianças, nem sempre em consonância com o ritmo a que a nossa cabeça foi dando de si. Para mim, todos aqueles espelhos adquiríveis, apenas nos poderão mostrar aparências, eventuais qualidades e defeitos a que o ser humano se prende para tecer uma primeira impressão sobre o que diante dos seus olhos se passa. Não há espelhos para as acções que vamos praticar amanhã, mas uma acção pode ser o espelho do que hoje somos.

E uma acção, seja ela de amizade ou amor, de solidariedade ou respeito, de frustração ou justiça, é algo que não pode ser apagado. Tenho todas as minhas grandes acções (“grandes”, não no sentido de me ter orgulhado de todas elas, mas sim por terem sido importantes) bem trancadas a sete chaves cá dentro. Falo de Amizades inexpugnáveis que construí, de Pessoas cuja essência guardo em mim com afinco, de Vozes que me soletram mensagens que teimo em seguir, fazendo delas parte do meu carácter.

Se em algum momento falhei com alguma delas? Certamente que sim e sou o primeiro a assumi-lo. A diversidade de personalidades e de valores, o inconstante estado de espírito do ser humano, geram, por vezes, dissabores incontroláveis em que certamente alguém sairá por baixo. Se um espelho mostrasse quem realmente somos, não reflectiria a mesma imagem em dois dias consecutivos. Um dia estamos na mó de cima e o sorriso surge como o expoente máximo da felicidade que aparentamos, outro dia estamos na penumbra de uma solidão triste e os nossos olhos fazem transbordar lágrimas de frustração.

Conclusão? Nenhuma. Somos o que somos. Com os nossos erros, com as nossas virtudes. E pouco mais há a dizer.