O bóemio

É noite
E lá vai o boémio.
Segue o seu rumo
Passo a passo.
Numa confiança desmedida
Em que o prazer é a própria vida.

Vida de quem tudo teve
No nada que sempre o acompanhou.
Páginas de histórias impensadas
E tudo é se não
Meia dúzia de mentiras pronunciadas.

Nem tudo foram rosas, é certo.
E sempre o boémio se bateu
Por ter o ópio por perto.
Ópio que o alimenta,
Ópio que lhe dói,
Ópio que não o matando,
Na dor morta o destrói.

Na sombra dos caminhos
Por si escolhidos,
A sua sombra o ofusca.
Uma sede de frescura
Da bebida que desbrava
A alucinação pura
De quem prefere esconder
Desilusões mil
Que o fizeram sofrer.

É noite
E as lágrimas secaram.
Lá vai o boémio
De encontro às loucuras da vida.
Essas em que cedo caímos
E tão tarde nos fazem levantar
Do poço em que mergulhámos
– a vida que nos quiseram tirar.

30/10/11