Palavras Sentidas

Nem tudo são rosas.
Nem o sorrir,
Nem o chorar.
Nem mesmo a loucura
Que é pensar.

Não conheço coisa mais sincera
Que uma mera palavra.
E as raridades onde me iludi,
Creio, ainda hoje,
Terem sido gestos que nunca percebi.

Coloco em causa
Toda a sinceridade dos gestos.
Arrepia-me a mesquinhez
De quem se vê no alto
Por desconhecer o que é a sensatez.

Talvez tudo fosse mais simples
Se ouvíssemos as palavras.
As que já ouvimos,
Até as que julgámos perdidas.
Todas elas, palavras sentidas.

28/08/12

 

Conto o tempo que passa

Conto o tempo que passa
De modo tão impreciso
Que não é certo para mim
Que ele passe.
Mas sei que passa
Pois ainda respiro.

Conto o tempo que passa
Por entre o que já vivi
E é tão fácil perder-me nele
Que nem eu acredito em mim.

Conto o tempo que passa
Enquanto eu passo por si.
Pergunto-me como serei
Quando o tempo passar por mim.

Conto o tempo que passa
Quando já nada tenho para contar.
Apenas as frescas memórias
Que em mim insistem em perdurar.

Conto o tempo que passa
Nos entretantos do que vivo.
E confesso não ser coisa fácil
Escrevê-los num só livro.

Conto o tempo que passa
Até que consiga encontrar-me.
Nem perto nem longe dos que amo…
Basta encontrar-me.

27/08/12

Apto para Sentir

Por muito que caminhe sobre a esfera terrestre, é para mim evidente que existe uma coisa que nunca terei a possibilidade de encontrar. Um ambiente sem quezílias onde todos os vivos convivam melodicamente. Ideia que, como é sabido, não é de todo a que se verifica neste cantinho arredondado que pisamos. Basta ter um pé no chão e todos damos, uns mais que outros, conta disso mesmo. Se Tudo seguisse as linhas da perfeição, então o Mundo não marcaria pela diferença, mas sim pela banalidade. E quando tudo é banal, não fará sentido falarmos no conceito de diferença, mas certamente que ela existirá, em grande parte, graças aos cinco poderes que quem Tudo criou nos concedeu. Cinco sentidos que nos permitem sentir tudo da melhor ou pior maneira possível, consoante a respectiva sensação é a maior felicidade ou o pior dos sofrimentos. E é precisamente nos sentidos que encontramos respostas para as nossas diferenças. Nem todos ouvimos da mesma maneira. Nem todos vemos da mesma maneira , e por aí em diante. Ninguém sente tudo da mesma maneira. Como tal, não fará o mínimo dos sentidos imaginar uma vida sem diferenças, sem algo que nos demarque dos outros.  É o modo como fruímos dos sentidos que dita o que difere entre nós.

O que me diferencia de ti é
O encanto com que te olho,
A atenção com que te ouço,
A ingenuidade com que te toco,
O sonho com que imagino o teu sabor,
A subtileza com que distingo o teu perfume.

Pensamentos Dessincronizados

Penso, não penso.
Penso, não penso.
Penso, não penso.
Penso, já pensei.
Penso, pensava eu
Que pensava.

Penso que penso
Quando já não julgava
Conseguir pensar.
Penso poder pensar
Que um dia terei
Algo mais em que pensar.

Penso que o pensamento
É racionalizar o sentimento.
Penso, contudo,
Que sentir é bem mais
Do que deixar-me ir.
É não ter que pensar
Que para lá do coração
Há uma consciência louca por falar.

Penso, não pensarei.
Penso, não pensarei.
Penso, não pensarei.
Bom seria,
Mas não sei!

22/08/12