Perdeste-te

Perdes-te em tom grave.
Ouves-te por dentro a soluçar.
Perguntas-te porquê?
Nem tu o sabes explicar.

O mundo, complexo demais,
O teu olhar sempre prendeu.
Nunca o compreendeste,
Nem o sentiste como teu…

Fingias que não vias,
Fazias de conta que não sabias.
Tu é que perdeste.
Passaste ao lado dos dias…

Tomaste como perdida
Uma luta que nunca tiveste.
Perdeste-te no tempo
E nem um adeus me disseste.

Não voltes a este lugar…
Creio que já não te conheceria.
Gostei de ti nos tempos
Em que o coração não mentia!

28/09/12

Estranho e Novo

É novo tudo aquilo que rompe com algo pré-estabelecido. É novo todo o acontecimento que venha mudar mentalidades, despertando-as para a necessidade de agir em algum instante. É também novo tudo aquilo que se demarca do passado, por apresentar características e potenciar factos que assimilem a ideia de que o velho está ultrapassado e urge caminhar no sentido da progressão. A novidade movimenta massas. A novidade apaixona e gera sentimentos. A novidade não passa despercebida no tempo a nenhum ser vivo. A novidade mexe, talvez demasiado, com a espécie humana.

Quando presos a uma rotina diária que visa controlar rigidamente os nossos dias, somos reféns das nossas responsabilidades. Das responsabilidades que temos para connosco e para com os outros, em todos os campos e mais alguns. Talvez, por isso mesmo, seja recorrente cairmos num aborrecimento aflitivo de quem não consegue fugir à formalidade sufocante que rege as suas tarefas diárias. Somos talhados para avaliar o nosso desempenho em função da qualidade e da alma que empregamos em tudo o que fazemos. Não é então de estranhar que seja perigosamente fácil cair no erro de pensar que basta alguma atitude e espírito q.b. para realizar tudo a que nos propomos. Uma larga margem do sucesso acarreta consigo aquele bocadinho de genialidade, querer, vontade e dedicação, muitas vezes escassos nas nossas acções.

É, então, de simples digestão a ideia de que é a novidade quem rompe com a estranheza de tudo nos parecer demasiadamente ignóbil, inútil e comum. A inovação gera bons feed-back’s. Se inovamos, estamos a trazer algum empolgamento ao nosso quotidiano. Quebra-se, pois, a monotonia de uma existência que até aqui se afigurava como a execução automática de uma mera lista de savoir-faire.

E o mesmo acontece connosco. A novidade fascina o ser humano. Todas as pessoas são estranhas até compreendermos, tão bem quanto possível, o porquê de se parecerem como tal aos nossos olhos. Quando nos confrontamos com pessoas notoriamente diferentes de nós, somos levados a pensar nos porquês que preconizam essas divergências. Interrogamo-nos, num raciocínio que muito tem de obsessivo, sobre o porquê dessas diferenças nos suscitarem tantas impressões. O sentimento de estranheza é a nossa primeira e mais forte reacção sensorial quando estamos perante a novidade.

E assim somos nós. E assim é o mundo. Marcado pela diferença, alimentado pelo novo.

Menina e Moça

É quando o fado acontece
e quando a cidade sonha
na tradição da boémia,

procurando na memória
saudade duma grandeza
que é parte da sua História.

A todos nós apetece
darmos graças pela graça
que a nossa cidade tem,
pedindo, como uma prece,
que todos a tratem bem,
porque Lisboa merece!

Artur Agostinho

Porque a minha Lisboa não fica atrás de NENHUMA cidade do mundo!

Twisted thoughts

Enquanto não recupero da deprê que me faz companhia neste momento em que regresso às terras que me viram nascer, aqui vos deixo um pensamento que invadiu a minha espinha dorsal quando me encontrava deitado sobre a relva de Russel Square. Eu…e  mais uns tantos esquilos!

Olhar fixamente o futuro faz esquecer o presente. O presente representa o que nós somos. O futuro é um produto fictício, um resultado meramente ilustrativo do que queremos ser e que, quiçá, nunca seremos. Entre um instante e outro, existe uma única diferença. De tão pequena e simples que é, talvez por isso mesmo nos esqueçamos que seja a maior de todas as certezas do mundo.
O presente é uma garantia, o futuro uma eterna dúvida.

09/09/12

Escrito em viagem

Prelúdio

Dadas as circunstâncias do momento em que me encontro a escrever estas palavras – que, mais adiante, enunciarei – esclareço, em consciência, que pela primeira vez na minha curta existência, não conseguirei garantir ser imune às mariquices que as próximas linhas possam relatar. Pelo facto assumido, apresento as minhas sinceras desculpas, esperando misericordiamente que possam dar um desconto a um triste jovem que não sabe o que diz.

Pastilha elástica a desmembrar-se aos poucos na boca, tentando acalmar os ouvidos cheios de pressão, animadamente exaltados ao som de Richie Campbell. Continuo com os mesmos dois braços que a qualidade de ser Humano me permite auferir, aos quais se juntou, temporariamente, uma enorme asa metálica branca que vislumbro através de um vidro de aspecto límpido que me acompanha do lado esquerdo. A descrição não engana. Perdi a minha virgindade aérea (eu avisei que as rabices haviam de aparecer sem pedir permissão…). João Pereira, 22 anos, encontra-se a bordo do vôo 354 com destino ao Aeroporto de Heathrow, Londres. Gosto de pensar que é bom sinal o facto de continuar a escrever esta memória descritiva de utilidade discutível. Significa, pois, que resisti ao impacto não previamente declarado da descolagem. “Isto é para meninos” foram as primeiras declarações de quem escreve, tentando disfarçar o borranço medonho que apertava o seu frágil estômago. O comandante diz com voz de embriagado que faltam meros 25 minutos para pisar terras de Sua Majestade. Se ele o diz, eu lá confio nele.

Hi London. Nice to meet you!