Natal

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo, Natal
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

 

Fernando Pessoa
in Diário de Notícias, 1928.

Um óptimo e santo Natal para todos. Mais que em paz com o mundo, desejo que estejam em paz convosco próprios! :)

No mundo do ser humano, há poucos que o são.

17/04/12

A mim, me prometo.

Olho para trás e atento nos únicos passos que os meus olhos conseguem alcançar. Os meus passos. Olho para o lado, para um e para outro. É a minha sombra que preenche esse espaço. Não é a sombra de mais ninguém, mas apenas a minha sombra. Olho-me ao espelho. Reflicto-me da mesma maneira de sempre. Se sou o mesmo de sempre, porque olho eu para trás e vejo apenas os meus passos? Se sou o mesmo de sempre, porque olho eu para o lado e apenas vislumbro a minha sombra? Estará, quiçá, escrito nalgum sítio que assim tem que ser. No meio de tudo o que vivi, debati-me por três coisas perfeitamente identificáveis. Vontades, Acções e Palavras. E neste mundo repleto de vontades ocultas ou desconexas, acções momentâneas e hipócritas e de palavras nem sempre sentidas, vejo-me hoje como alguém que, finalmente, sucumbira à obsessão irracional de um eterno desejo de estar em paz consigo próprio, com as almas alheias, com o diabo e, se necessário, com todos os seres mais infinitesimais desta vida. Diz respeito ao Carácter aquela parcela ínfima das nossas decisões cuja opção recai sobre um vinculativo “não”. Reside na nossa personalidade o instinto que nos permite compreender a linha a partir da qual deixámos de ser inteligentes para passarmos a ser apenas mais uns bananas de primeira classe que pisam este solo. Tendo em conta que primo, e muito, pela minha inteligência, deixo prometer-me a mim mesmo que tudo farei para incutir nas densas fibras desta massa cinzenta, aquele quê de frio pragmatismo que me faltou em alguns instantes. Poder-se-á naturalmente colocar a questão se ainda vou a tempo. Verei. Talvez sim, talvez não. Certezas, poucas tenho. Tirando uma. Estarei tranquilamente erguido até ao dia em que o peso de uma acção que não senti me derrubar.