“À Beleza”

A Primavera traz hoje consigo o Dia Mundial da Poesia. Para variar, o meu contributo não será dado por meio de um poema da minha autoria. Trata-se de um poema que li recentemente, escrito por alguém que, a nós Lusitanos, nos pertence e que dispensa a mais modesta das apresentações. Exultemos a Arte, a Escrita, a POESIA!

Não tens corpo, nem pátria, nem família, 
Não te curvas ao jugo dos tiranos. 
Não tens preço na terra dos humanos, 
Nem o tempo te rói. 
És a essência dos anos, 
O que vem e o que foi. 

És a carne dos deuses, 
O sorriso das pedras, 
E a candura do instinto. poesia
És aquele alimento 
De quem, farto de pão, anda faminto. 

És a graça da vida em toda a parte, 
Ou em arte, 
Ou em simples verdade. 
És o cravo vermelho, 
Ou a moça no espelho, 
Que depois de te ver se persuade. 

És um verso perfeito 
Que traz consigo a força do que diz. 
És o jeito 
Que tem, antes de mestre, o aprendiz. 

És a beleza, enfim. És o teu nome. 
Um milagre, uma luz, uma harmonia, 
Uma linha sem traço… 
Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 
Tudo repousa em paz no teu regaço. 

Miguel Torga
«Odes»

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Viagem da Alma

Embarco numa viagem da Alma
Quando tudo aquilo que dei,
Que não foi menos que o que pude dar,
Se ancorou às ilusões de quem quis Sonhar.

Os ventos da mudança. Sempre eles.
Gritam-me lá do longe aqui tão perto
Para que chegue junto deles.
Para que não me perca no deserto.

Ah, como é bom viajar!
Desprender-me do que julgo ser
E sentir-me livre como o vento.

Já me senti livre como o vento.
Num tempo em que pensava
Que nem tudo é pensar.
Não sei já desse tempo.

É o coração uma espécie de intuição?
É a racionalidade um austero escudo?
Que é do meu tempo de Razão?

18/03/14

Um dia quis ser quem não fui
E em nenhum quem hoje sou.

06/03/14

“Surdo, Subterrâneo Rio”

Surdo, subterrâneo rio de palavrasGerês
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
— surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade