As palavras pouco dizem da existência.
O absolutamente inabdicável é agir.

18/08/14

Exame de consciência

Executo agora, no preciso instante em que escrevo, um exame de consciência. Nenhum exame pode ser feito, seja lá sobre que matéria for, se não for definível o conceito que tal provação pretende testar.

Ser consciente significa, em primeira instância, crer na plenitude da ideologia própria de cada indivíduo. E, entenda-se, para que dúvidas não se levantem, que a ideologia comporta fenómenos tão inquietos como a religião, a própria visão sociológica que retemos dos diversos estilos de vida e seus respectivos valores, resultando nos padrões comportamentais pelos quais nos regemos ao longo do nosso existir. À parte da consciência que acabo de caracterizar, apelido-a de consciência moral.

À grandeza da diferenciação explícita, mera suposição utópica, da possibilidade de conceber que a razão e a emoção nada ambicionam de si mesmas se não o permanente chamamento do seu oposto, dou o nome de consciência emocional. Dizendo-o mais claramente, à luz de todos os sentidos que disponho, agir segundo a razão é um conceito antagonicamente simbólico à mágica perspectiva de uma pessoa se deixar levar, por seu livre arbítrio,  pela emoção. Mente e coração, envoltos num elo eterno até ao último respirar, são dois pratos de uma balança que alternadamente se equilibra e desequilibra. Prova mais do que evidente de que, não sabendo nem querendo saber como deles fazer uso, o caminho para o beco da indefinição estará, assim, mais próximo.

Defini, até este ponto, dois filhos da mãe Consciência. Um reflecte a moral que pratico e defendo; o segundo, de valor bem mais imensurável, mas dono maior – e digo-o com toda a certeza que me é permitida ter – de mim mesmo.

Ser consciente comporta, portanto, agir conforme as linhas que orientam a minha moral e dominar, da forma que souber ou que me for permitida, a minha emoção.

Ser moralmente consciente é sabermos servir-nos das formais regras que a sociedade nos trouxe ao longo dos séculos fazendo ressaltar, de toda a forma possível, o sumo que esprememos das vivências que guardamos com quem nos fez crescer. E, ainda que não tenhamos percebido, aqui nascem os nossos valores primários. Os valores secundários diferem destes por potenciarem os apontamentos detalhados que nos distinguem até das pessoas que nos viram chegar até este momento, sabedoras dos males e do bem mascarado que, neste existir, vive como se não déssemos conta disso. Sou moralmente consciente se seguir o meu trilho, fiel às minhas doutrinas e aos limites que eu, voluntariamente conhecedor de mim mesmo, crio para mim, acima de qualquer premissa ditada pela opinião pública.

Por outro lado, ser emocionalmente consciente é, à partida, um estado envolto num enigma da mais louca dificuldade. Implica abdicar da voz da razão quando tudo o que mais desejamos é voar ao sabor da emoção. Ou, pelo contrário, implica relegar para um segundo plano a visão emocional que temos das coisas que conhecemos – comuns objectos ou pessoas – em detrimento do lado racional que ecoa nas nossas mais profundas instâncias. Neste último caso, poder-se-ia falar de uma consciência racional. Pese embora a razoabilidade lógica desta derivação da consciência emocional em consciência racional, considero, em boa verdade, que ser emocionalmente consciente é um estado de Alma, ele próprio, encarregue de lidar – pelo grito ou pelo silêncio – com estas duas dimensões que nos habitam. Designar esta componente da consciência por consciência racional seria, segundo o panorama pelo qual me expus, absolutamente redutor. Um facto mais que provado será, pois, o de que a dimensão da emoção supera abissalmente a voz da razão no instante em que temos que agir ou decidir.

Consolidando as pontas soltas dos remendos de palavras que até então escrevi, poder-se-á concluir que ser emocionalmente consciente, em última e não menos utópica leitura, passará por saber dosear o peso com que valoramos os dois pratos da balança que descrevi. Ser emocionalmente consciente é ser um indivíduo que não existe, pois ninguém conseguirá, pela força inexpugnável dos dois contrários mundos ou pelo desconhecimento que temos das suas valências, obter real proveito destes elementos, misteriosa e fatalmente ligados até ao dia da nossa morte.

16/08/14

Suprema lucidez

À luz do retrato objectivo onde me pinto
E, despindo-me do julgamento precoce e vão,
Vejo, clara e dolorosamente, que darmo-nos
É uma tolice sem nenhum perdão.

Se me dou, expande-se-me a quimera
De saber que tudo pus no nada que colhi.
Se não me dou, invade-se-me a consciência
Pelas sensações negras do Fado.
Se é que nele acredito. Ideal escusado!

Se a alguém me dei a provar,
Fi-lo com o melhor que sei fazer de mim.
E quando nos damos com tamanha Alma,
Conheceremos, conscientes pálidos, o nosso fim.

Amar? Tudo se lhe é permitido.
Conclusões utópicas de sonhos prometidos
As vagas ilusões de um desfecho apetecido.
Desenganemo-nos! Que o fim sempre vem.
Fatal como a morte, mas não mata ninguém!

 

20/08/14

Sombras alheias

Arrisquemos sonhar.
Sonhar uma vida a dois
Que me ouse levar
Pela sinceridade de quem sois.

Que os contornos de um rosto
Por mim ainda desconhecidos
Sejam aqueles que ao sol-posto
Se revelam os merecidos.

Superemos a obsessão irracional
De nos lermos mutuamente.
E aprendamos que é a vivência carnal
O fruto de um sentir ardente.

Que os nossos olhos fitem
A sombra de um único ser.
E que fora de nós se limitem
A tudo poder satisfazer!

 

08/08/14