Silenciosas palavras

Silenciosas palavrasEscrevi há uns tempos, em tom de resposta a uma jovem – seguidora deste blogue e que, tal como eu, partilha a paixão da Escrita – a propósito da infinidade de vezes que passamos pelo doloroso período de silêncio em que as palavras nos escapam:

 “Nem para velhos, nem para novos, a vida foi e é fácil. Quem com o simples se contenta, contenta-se em existir. Ao que sabemos, não basta existir para chegar a qualquer porto de abrigo. Por isso, pensamos. E pensamos. E pensamos…

Quando as palavras nos faltam, falta-nos tudo. Tudo menos a suposição de querermos, mais desesperadamente que outra coisa qualquer, chegar à chave que possa abrir a porta pela qual pretendemos passar. Atingir as palavras, saber onde procurá-las, é nada mais, nada menos, que o eterno desafio de quem ao papel se ousa exprimir.

Se hoje não fizeste chegar a tua alma às palavras – ou as palavras à tua alma, dependendo da direcção pela qual sopra o teu “eu” poético – será amanhã ou depois. Cedo ou tarde, acabarás sempre por pensar e agarrar essas sílabas. E mesmo, no final do silencioso sofrimento por que passaste para encontrar essa forma ideal de dares voz ao que sentes e queres transmitir, acabarás por continuar a pensar. Porque é isso que fazemos quando nada temos e tudo temos. Pensar!

Muitos saberão o que quero dizer. Não é infelizmente possível – pelo menos, com a paixão e com a garra que sempre ambicionamos colocar no papel – escrever todos os dias, como se apenas bastasse que o quiséssemos realmente.

Podemos até escrever uma ideia, de forma relativamente simples, mas absolutamente desprovida daquele corpo em que a concebemos inicialmente. Podemos até escrever um verso que, no fim, se revelara deveras surpreendente, mas que peca por esse mesmo motivo – o de ser surpreendente. Mesmo reconhecendo potencial ao que escrevemos, não foi o verso que imaginámos e, muito menos, construído sobre o ideal que quisemos expor.

Escrever é muito isto. Uma infindável batalha por uma busca de palavras que se possam juntar a uma mesa e, em debates resultantes de ideias aparentemente desconexas, criar algo verdadeiramente provido de sentido.

É, por isto, que Escrever é aquilo que verdadeiramente me apaixona. Porque é doentio. Porque me põe doente. E, no fim, me cura realmente.

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