A esplanada

Na esplanada cinemática
Feita de chegadas e partidas,
Há criaturas humanas
Que vêm e ficam,
Frescuras de alma
Em quem sempre habitam
Cruéis arrependimentos
De terem desafiado a matemática.

A esplanada pequena,Esplanada de Civil
O mundo de todos.
Dos atrasados
Que ficaram à porta,
Dos perdidos
Que não sabem onde estão
(Nem querem saber!)
E que, por arrogante ingenuidade,
Julgam ser donos da razão.

É esta a esplanada
Do verde e azul desassossego
Onde engenheiros inquietos
Projectam momentos, carreiras,
Vidas múltiplas, inteiras,
E arquitectos despertos
Para os quês da realidade
Desenham conversas pela insanidade.

Uma esplanada,
Um teatro de vários géneros.
De actores voadores
Que nos visitam sem recear
A chávena que o chão queira quebrar.
Da personagem que nos desperta
A mais inquietante das sensações
Num ímpeto que liberta
A voz dos nossos corações.

É esta a esplanada!
A nossa vida contada.
A conversa fiada
Como se não houvesse balada
Que desse por terminada
Esta vontade amplificada
De não cessar qualquer risada
Até que a chuva dite a debandada.

16/04/15

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Donos de quê?

Nada é nosso.
Ninguém.
O suposto alguém.

Não há tempo
Que sempre nos pertença.
Nem espaço
Que nunca nos esqueça.

Somos apenas donos
De nós mesmos.

Não há amor
Que sempre dure.
Nem dor
Que nunca se cure.

Somos donos de nada.
Esse nada que somos.

Não existe momento
Provado sem razão.
Nem vida
Desprovida de paixão.

Nem o suposto alguém.
Ninguém!
Nada é nosso.

15/04/15

Nós

Nunca é tarde contigo.
As horas passam como o vento.
sssssE nós…
Não contentes com a vida,
sssssQuisemos sê-la.
Não submissos à regra,
sssssQuebrámo-la.
Não satisfeitos com o que somos,
sssssFomos mais.
Não resignados com a apatia,
sssssOusámos findá-la.
Não dominados pela lágrima,
sssssLutámos por e neste Amor.
E assim ficámos.

05/04/15

Espero não ter chegado tarde

Espero não ter chegado tarde.
Espero ter vindo ainda a tempo
De desenhar as linhas do refúgio
Onde recordarás as tuas manhãs de Inverno.

Espero não ter chegado tarde.
Demasiadamente tarde.
É urgente que compreendas
Que é o mundo que está errado.
Não tu. (Acredita em mim!)

Espero não ter chegado tarde
Ao horizonte dos teus olhos.
É que dele não pretendo sair.
A menos que tenhas já partido!

Espero ter chegado a tempo
De ser merecedor do teu sorriso.
É ele que me destrona.
Soubesses tu isto de forma clara
E talvez nunca pensasses partir!

Espero ter chegado a tempo
De sentires em mim
Que não vale a pena, nem podes
Fechar as portas da esperança.

Espero que não seja tarde.
Nunca deveria ser tarde
Para sermos ridículos a pares.
Nunca deveria ser tarde
Para erguermos um Sonho.

Nunca é tarde
Para ousarmos Amar.

05/04/15

Fácil

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.

Carlos Drummond de Andrade
Itabira, Minas Gerais, Brasil
1902-1987