Viagem da Alma

Embarco numa viagem da Alma
Quando tudo aquilo que dei,
Que não foi menos que o que pude dar,
Se ancorou às ilusões de quem quis Sonhar.

Os ventos da mudança. Sempre eles.
Gritam-me lá do longe aqui tão perto
Para que chegue junto deles.
Para que não me perca no deserto.

Ah, como é bom viajar!
Desprender-me do que julgo ser
E sentir-me livre como o vento.

Já me senti livre como o vento.
Num tempo em que pensava
Que nem tudo é pensar.
Não sei já desse tempo.

É o coração uma espécie de intuição?
É a racionalidade um austero escudo?
Que é do meu tempo de Razão?

18/03/14

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Os anjos não têm asas

Os anjos não têm asas. Não voam. Os anjos caminham entre nós. Têm pensamentos e vontades próprias. Os anjos não têm rosto definido. Não ostentam nenhuma auréola que os identifique como praticantes do bem. Os anjos não têm nome. Posso ser eu. Podes ser tu. Os anjos existem realmente. Apenas diferem na forma como os idealizamos. Os anjos não são aqueles que vestem de branco. São todos quantos queiram Lisboaolhar por alguém antes de olharem por si. Os anjos têm alma. A luz que transmitem não é mais que o contentamento de quem esteve presente quando alguém precisou. Os anjos não ouvem gritos de aflição. Sentem a dor alheia no silêncio. Os anjos não agem em prol de um “obrigado”. Sentem-se agradecidos pelas oportunidades em que puderam estar junto de alguém em momentos especiais. Os anjos não têm idade. A sua sabedoria é alimentada por todos aqueles que em algum instante lhes tocaram. Os anjos não vêem um mau carácter por trás de um gesto ruim. Vêem um ser Humano que erra num dia menos bom. Os anjos não apontam o dedo quando não são suficientemente humildes para chamarem a si a culpa do falhanço. Reconhecem não ser perfeitos e sabem pedir desculpa. Os anjos não anseiam nada. A sua felicidade é a surpresa. Os anjos não são vozes supremas, escolhedoras de bonitas palavras em instantes de mágoa. Fazem de cada palavra uma ocasião para um gesto. Os anjos não são quem apenas sabe sorrir. Também eles provam o sentimento da traição e da perda. Os anjos não guardam ressentimentos. Fortalecem a sua personalidade com as memórias dos seus dissabores. Os anjos respiram o mesmo ar de todos nós. Todos podemos ser anjos, ainda que não o saibamos. Os anjos são raros, mas existem. Resta-nos saber encontrá-los.

21/11/13

Só termina no fim

Demorei. Demorei a compreender que o tempo é breve e se esvanece tão rapidamente, quanto mais lenta é a minha prontidão no agir. Demorei a entender que viver de olhos fechados é tão somente uma tentativa automática e desesperada de evitar o que é real e, acima disso, de ser eu próprio. Demorei a interiorizar o facto de uma porta se ter fechado em virtude de uma janela que, bem ou mal, foi deixada para trás, tão só e apenas porque assim o quis. Demorei a assumir que o legado por mim defendido – e que se consubstancia na ideia de que o Querer, só por si, consegue alcançar tudo a quanto se propõe – é profundamente errado e, mais que isso, não traduz, não raras vezes, quem sou ou quem quero ser. Demorei a pousar na terra e a reconhecer, sem qualquer vergonha de ter acreditado, que o Sonho é importante, que o Sonho alimenta a alma, que o Sonho é uma permanente e volúvel balança de sentimentos, mas – e apesar de toda a manifestação omnipresente da sua existência – o Sonho não dita felicidade. Demorei até abrir realmente os olhos e ver as coisas tal como são. Demorei a conhecer a penosa verdade que rege o Amor, em que ninguém é inteiramente de ninguém, ninguém pertence realmente ao mundo de ninguém, até porque, se assim o fosse, perder-se-ia a singularidade de cada um em detrimento de uma esperança de que duas partes tão distintas possam resultar em algo bom, num todo criador de felicidade. Demorei a ler que a vida não pára e que o meu percurso continua até que me escape o coração, a mente, a alma. Demorei a atingir a Verdade, mas consegui-o.

23/06/13

Há três dimensões para lá de uma fotografia.
Coração, Mente e Alma.

25/09/12