Exame de consciência

Executo agora, no preciso instante em que escrevo, um exame de consciência. Nenhum exame pode ser feito, seja lá sobre que matéria for, se não for definível o conceito que tal provação pretende testar.

Ser consciente significa, em primeira instância, crer na plenitude da ideologia própria de cada indivíduo. E, entenda-se, para que dúvidas não se levantem, que a ideologia comporta fenómenos tão inquietos como a religião, a própria visão sociológica que retemos dos diversos estilos de vida e seus respectivos valores, resultando nos padrões comportamentais pelos quais nos regemos ao longo do nosso existir. À parte da consciência que acabo de caracterizar, apelido-a de consciência moral.

À grandeza da diferenciação explícita, mera suposição utópica, da possibilidade de conceber que a razão e a emoção nada ambicionam de si mesmas se não o permanente chamamento do seu oposto, dou o nome de consciência emocional. Dizendo-o mais claramente, à luz de todos os sentidos que disponho, agir segundo a razão é um conceito antagonicamente simbólico à mágica perspectiva de uma pessoa se deixar levar, por seu livre arbítrio,  pela emoção. Mente e coração, envoltos num elo eterno até ao último respirar, são dois pratos de uma balança que alternadamente se equilibra e desequilibra. Prova mais do que evidente de que, não sabendo nem querendo saber como deles fazer uso, o caminho para o beco da indefinição estará, assim, mais próximo.

Defini, até este ponto, dois filhos da mãe Consciência. Um reflecte a moral que pratico e defendo; o segundo, de valor bem mais imensurável, mas dono maior – e digo-o com toda a certeza que me é permitida ter – de mim mesmo.

Ser consciente comporta, portanto, agir conforme as linhas que orientam a minha moral e dominar, da forma que souber ou que me for permitida, a minha emoção.

Ser moralmente consciente é sabermos servir-nos das formais regras que a sociedade nos trouxe ao longo dos séculos fazendo ressaltar, de toda a forma possível, o sumo que esprememos das vivências que guardamos com quem nos fez crescer. E, ainda que não tenhamos percebido, aqui nascem os nossos valores primários. Os valores secundários diferem destes por potenciarem os apontamentos detalhados que nos distinguem até das pessoas que nos viram chegar até este momento, sabedoras dos males e do bem mascarado que, neste existir, vive como se não déssemos conta disso. Sou moralmente consciente se seguir o meu trilho, fiel às minhas doutrinas e aos limites que eu, voluntariamente conhecedor de mim mesmo, crio para mim, acima de qualquer premissa ditada pela opinião pública.

Por outro lado, ser emocionalmente consciente é, à partida, um estado envolto num enigma da mais louca dificuldade. Implica abdicar da voz da razão quando tudo o que mais desejamos é voar ao sabor da emoção. Ou, pelo contrário, implica relegar para um segundo plano a visão emocional que temos das coisas que conhecemos – comuns objectos ou pessoas – em detrimento do lado racional que ecoa nas nossas mais profundas instâncias. Neste último caso, poder-se-ia falar de uma consciência racional. Pese embora a razoabilidade lógica desta derivação da consciência emocional em consciência racional, considero, em boa verdade, que ser emocionalmente consciente é um estado de Alma, ele próprio, encarregue de lidar – pelo grito ou pelo silêncio – com estas duas dimensões que nos habitam. Designar esta componente da consciência por consciência racional seria, segundo o panorama pelo qual me expus, absolutamente redutor. Um facto mais que provado será, pois, o de que a dimensão da emoção supera abissalmente a voz da razão no instante em que temos que agir ou decidir.

Consolidando as pontas soltas dos remendos de palavras que até então escrevi, poder-se-á concluir que ser emocionalmente consciente, em última e não menos utópica leitura, passará por saber dosear o peso com que valoramos os dois pratos da balança que descrevi. Ser emocionalmente consciente é ser um indivíduo que não existe, pois ninguém conseguirá, pela força inexpugnável dos dois contrários mundos ou pelo desconhecimento que temos das suas valências, obter real proveito destes elementos, misteriosa e fatalmente ligados até ao dia da nossa morte.

16/08/14

A duas vozes

Todos os instantes me parecem reais
Quando fecho os olhos e penso.
De tudo me lembro,
De nada me esqueço.
Até que, por fim, adormeço.

Mas dormir é também pensar.
Num alheamento da realidade.
Por vezes, tão perto da verdade.
Múltiplos e incertos caminhos
Por onde vagueio. Por onde sonhar.

Nada para lá do eterno Sonho
Mais ambiciono decifrar
Que esta letal união
Entre o sentimento e a razão.
Soubesse eu conciliar…

Todo o segundo em que existo
Vive desta constante oposição.
E que difícil é fugir disto
Quando me entrego em vão
Nesta irracional vontade do coração!

 

25/06/14

 

 

Viagem da Alma

Embarco numa viagem da Alma
Quando tudo aquilo que dei,
Que não foi menos que o que pude dar,
Se ancorou às ilusões de quem quis Sonhar.

Os ventos da mudança. Sempre eles.
Gritam-me lá do longe aqui tão perto
Para que chegue junto deles.
Para que não me perca no deserto.

Ah, como é bom viajar!
Desprender-me do que julgo ser
E sentir-me livre como o vento.

Já me senti livre como o vento.
Num tempo em que pensava
Que nem tudo é pensar.
Não sei já desse tempo.

É o coração uma espécie de intuição?
É a racionalidade um austero escudo?
Que é do meu tempo de Razão?

18/03/14

Os anjos não têm asas

Os anjos não têm asas. Não voam. Os anjos caminham entre nós. Têm pensamentos e vontades próprias. Os anjos não têm rosto definido. Não ostentam nenhuma auréola que os identifique como praticantes do bem. Os anjos não têm nome. Posso ser eu. Podes ser tu. Os anjos existem realmente. Apenas diferem na forma como os idealizamos. Os anjos não são aqueles que vestem de branco. São todos quantos queiram Lisboaolhar por alguém antes de olharem por si. Os anjos têm alma. A luz que transmitem não é mais que o contentamento de quem esteve presente quando alguém precisou. Os anjos não ouvem gritos de aflição. Sentem a dor alheia no silêncio. Os anjos não agem em prol de um “obrigado”. Sentem-se agradecidos pelas oportunidades em que puderam estar junto de alguém em momentos especiais. Os anjos não têm idade. A sua sabedoria é alimentada por todos aqueles que em algum instante lhes tocaram. Os anjos não vêem um mau carácter por trás de um gesto ruim. Vêem um ser Humano que erra num dia menos bom. Os anjos não apontam o dedo quando não são suficientemente humildes para chamarem a si a culpa do falhanço. Reconhecem não ser perfeitos e sabem pedir desculpa. Os anjos não anseiam nada. A sua felicidade é a surpresa. Os anjos não são vozes supremas, escolhedoras de bonitas palavras em instantes de mágoa. Fazem de cada palavra uma ocasião para um gesto. Os anjos não são quem apenas sabe sorrir. Também eles provam o sentimento da traição e da perda. Os anjos não guardam ressentimentos. Fortalecem a sua personalidade com as memórias dos seus dissabores. Os anjos respiram o mesmo ar de todos nós. Todos podemos ser anjos, ainda que não o saibamos. Os anjos são raros, mas existem. Resta-nos saber encontrá-los.

21/11/13

Força do Ser

Por vezes sou mais,Ponte D. Luís, Porto
Por vezes sou menos
Do que aquilo que julgo ser.
E com tanta meticulosa análise
Talvez me esqueça de viver.

Luto e fraquejo,
Com a razão e pelo desejo
De poder brilhar nesta vida.
É esta a minha força
Que também é a minha ferida!

16/07/13

Enganos da Razão

Estou certo a toda a hora.
Engano-me continuamente.
Não é uma contradição!
É uma dualidade permanente!

De um lado a razão
Sempre me impele para agir,
Seguindo as leis morais
Que me dizem para onde ir!

Mas ser racional
É também ser falível.
Quem se julga sempre certo
Descobrirá não ser invencível!

São tantos os enganos
Que a Razão propicia…
Se eu os contasse de cabeça
Creio que nem dormia!

08/10/12