Do que me perdi

Existo, conheço, sinto.
Todos os dias um pouco mais.
Mas ainda não finto
Os pensamentos mais banais.

Nem eu quero fintar
A mais comum das sensações.
De contrário, quero captar
A vida dos demais corações.

Não se adivinha fácil.
De resto, nada o é.
De nada me vale ser hábil
Se não tenho qualquer fé.

Num instante que não sei
Tornei-me no que hoje sou.
Da esperança abdiquei.
Quase tudo me levou.

E agora que fito o horizonte,
Nega-me incerta luz a visão.
Talvez tema estar defronte
De quem um dia lhe soltou a mão.

17/01/14

Suposições (Do que sou e sinto)

Em nenhum instante
Supus a sua existência.
Pelo menos que me lembre.
Minha inocência…

Não imagino
Como nunca imaginei
Que pudesse ser real.
Atracção quase fatal.

Nada esperei
Quando talvez o devesse.
Triste a memória.
Coração que a esquecesse…

Falsa sensação
De um sorriso conhecido.
Tida numa noite dormida.
Que nunca fora vivida.

Nada controlo
No que há fora de mim.
Minhas fortes suposições.
Nem sempre têm um fim…

Nada fiz,
Tudo apenas pensei.
Faço o meu caminho.
Incógnito o destino.

Uma ambição muda
Não faz a vitória.
Mas o Sonho, meu Ser,
Conhecerá a glória!

De uma forma imprevista. 
Quando e onde acontecer. 
Sob algum género de sorriso.
Isto são certezas.
       Espero.

27/12/13

Os anjos não têm asas

Os anjos não têm asas. Não voam. Os anjos caminham entre nós. Têm pensamentos e vontades próprias. Os anjos não têm rosto definido. Não ostentam nenhuma auréola que os identifique como praticantes do bem. Os anjos não têm nome. Posso ser eu. Podes ser tu. Os anjos existem realmente. Apenas diferem na forma como os idealizamos. Os anjos não são aqueles que vestem de branco. São todos quantos queiram Lisboaolhar por alguém antes de olharem por si. Os anjos têm alma. A luz que transmitem não é mais que o contentamento de quem esteve presente quando alguém precisou. Os anjos não ouvem gritos de aflição. Sentem a dor alheia no silêncio. Os anjos não agem em prol de um “obrigado”. Sentem-se agradecidos pelas oportunidades em que puderam estar junto de alguém em momentos especiais. Os anjos não têm idade. A sua sabedoria é alimentada por todos aqueles que em algum instante lhes tocaram. Os anjos não vêem um mau carácter por trás de um gesto ruim. Vêem um ser Humano que erra num dia menos bom. Os anjos não apontam o dedo quando não são suficientemente humildes para chamarem a si a culpa do falhanço. Reconhecem não ser perfeitos e sabem pedir desculpa. Os anjos não anseiam nada. A sua felicidade é a surpresa. Os anjos não são vozes supremas, escolhedoras de bonitas palavras em instantes de mágoa. Fazem de cada palavra uma ocasião para um gesto. Os anjos não são quem apenas sabe sorrir. Também eles provam o sentimento da traição e da perda. Os anjos não guardam ressentimentos. Fortalecem a sua personalidade com as memórias dos seus dissabores. Os anjos respiram o mesmo ar de todos nós. Todos podemos ser anjos, ainda que não o saibamos. Os anjos são raros, mas existem. Resta-nos saber encontrá-los.

21/11/13

Soneto Invertido

Fito-me. Fiel a mim mesmo.
O que não fui, nada o sou.
O pouco que tenho, tudo dou.

Pergunto-me. Fiz suficiente?Soneto Invertido
Sonhei. Como um louco.
Fui feliz, mas soube a pouco.

Vejo ao perto um novo ano.
E prestes a querer dar de si.
Sempre fora um mundano,
Quis sentir tudo o que vi.

Não tomo o tempo por inteiro.
Alimento-me pelo Momento.
As palavras não trazem dinheiro,
Mas levam-me ao sabor do vento.

01/01/13

Apto para Sentir

Por muito que caminhe sobre a esfera terrestre, é para mim evidente que existe uma coisa que nunca terei a possibilidade de encontrar. Um ambiente sem quezílias onde todos os vivos convivam melodicamente. Ideia que, como é sabido, não é de todo a que se verifica neste cantinho arredondado que pisamos. Basta ter um pé no chão e todos damos, uns mais que outros, conta disso mesmo. Se Tudo seguisse as linhas da perfeição, então o Mundo não marcaria pela diferença, mas sim pela banalidade. E quando tudo é banal, não fará sentido falarmos no conceito de diferença, mas certamente que ela existirá, em grande parte, graças aos cinco poderes que quem Tudo criou nos concedeu. Cinco sentidos que nos permitem sentir tudo da melhor ou pior maneira possível, consoante a respectiva sensação é a maior felicidade ou o pior dos sofrimentos. E é precisamente nos sentidos que encontramos respostas para as nossas diferenças. Nem todos ouvimos da mesma maneira. Nem todos vemos da mesma maneira , e por aí em diante. Ninguém sente tudo da mesma maneira. Como tal, não fará o mínimo dos sentidos imaginar uma vida sem diferenças, sem algo que nos demarque dos outros.  É o modo como fruímos dos sentidos que dita o que difere entre nós.

O que me diferencia de ti é
O encanto com que te olho,
A atenção com que te ouço,
A ingenuidade com que te toco,
O sonho com que imagino o teu sabor,
A subtileza com que distingo o teu perfume.