Silenciosas palavras

Silenciosas palavrasEscrevi há uns tempos, em tom de resposta a uma jovem – seguidora deste blogue e que, tal como eu, partilha a paixão da Escrita – a propósito da infinidade de vezes que passamos pelo doloroso período de silêncio em que as palavras nos escapam:

 “Nem para velhos, nem para novos, a vida foi e é fácil. Quem com o simples se contenta, contenta-se em existir. Ao que sabemos, não basta existir para chegar a qualquer porto de abrigo. Por isso, pensamos. E pensamos. E pensamos…

Quando as palavras nos faltam, falta-nos tudo. Tudo menos a suposição de querermos, mais desesperadamente que outra coisa qualquer, chegar à chave que possa abrir a porta pela qual pretendemos passar. Atingir as palavras, saber onde procurá-las, é nada mais, nada menos, que o eterno desafio de quem ao papel se ousa exprimir.

Se hoje não fizeste chegar a tua alma às palavras – ou as palavras à tua alma, dependendo da direcção pela qual sopra o teu “eu” poético – será amanhã ou depois. Cedo ou tarde, acabarás sempre por pensar e agarrar essas sílabas. E mesmo, no final do silencioso sofrimento por que passaste para encontrar essa forma ideal de dares voz ao que sentes e queres transmitir, acabarás por continuar a pensar. Porque é isso que fazemos quando nada temos e tudo temos. Pensar!

Muitos saberão o que quero dizer. Não é infelizmente possível – pelo menos, com a paixão e com a garra que sempre ambicionamos colocar no papel – escrever todos os dias, como se apenas bastasse que o quiséssemos realmente.

Podemos até escrever uma ideia, de forma relativamente simples, mas absolutamente desprovida daquele corpo em que a concebemos inicialmente. Podemos até escrever um verso que, no fim, se revelara deveras surpreendente, mas que peca por esse mesmo motivo – o de ser surpreendente. Mesmo reconhecendo potencial ao que escrevemos, não foi o verso que imaginámos e, muito menos, construído sobre o ideal que quisemos expor.

Escrever é muito isto. Uma infindável batalha por uma busca de palavras que se possam juntar a uma mesa e, em debates resultantes de ideias aparentemente desconexas, criar algo verdadeiramente provido de sentido.

É, por isto, que Escrever é aquilo que verdadeiramente me apaixona. Porque é doentio. Porque me põe doente. E, no fim, me cura realmente.

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As palavras pouco dizem da existência.
O absolutamente inabdicável é agir.

18/08/14

Redenção

As palavras são a voz da Alma.
Que se dane a métrica.
Não é ela que traz ética
À prática poética.
Não é ela que traz alento
A quem se consome pelo sentimento.

Sou do tamanho do meu Sonho
E de todos os meus valores.
E não do tamanho das palavras
Que expressam as minhas dores.

Se vale a pena assim escrever
É porque nisso sinto paixão.
Nada mais com isto alcanço
A não ser a nobre redenção
Perante este mundo que me deu a mão.

 

03/07/14

“Surdo, Subterrâneo Rio”

Surdo, subterrâneo rio de palavrasGerês
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
— surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade 

Espontânea Vontade

Os desejos intermináveis
De escrever sem findar
Erguem as inolvidáveis
Palavras que são o meu ar.palavras1

As subjugações interiores
Que alimentam o meu viver,
Quiçá os únicos amores
Que não tive que escolher.

Sombrias vozes inaudíveis
Segredam dentro de mim
Estas palavras legíveis
Que escrevo sem fim.

Pequenas letras combinadas
Somente buscam a verdade
Quando o coração dá asas
À minha espontânea Vontade.

03/12/13

Os anjos não têm asas

Os anjos não têm asas. Não voam. Os anjos caminham entre nós. Têm pensamentos e vontades próprias. Os anjos não têm rosto definido. Não ostentam nenhuma auréola que os identifique como praticantes do bem. Os anjos não têm nome. Posso ser eu. Podes ser tu. Os anjos existem realmente. Apenas diferem na forma como os idealizamos. Os anjos não são aqueles que vestem de branco. São todos quantos queiram Lisboaolhar por alguém antes de olharem por si. Os anjos têm alma. A luz que transmitem não é mais que o contentamento de quem esteve presente quando alguém precisou. Os anjos não ouvem gritos de aflição. Sentem a dor alheia no silêncio. Os anjos não agem em prol de um “obrigado”. Sentem-se agradecidos pelas oportunidades em que puderam estar junto de alguém em momentos especiais. Os anjos não têm idade. A sua sabedoria é alimentada por todos aqueles que em algum instante lhes tocaram. Os anjos não vêem um mau carácter por trás de um gesto ruim. Vêem um ser Humano que erra num dia menos bom. Os anjos não apontam o dedo quando não são suficientemente humildes para chamarem a si a culpa do falhanço. Reconhecem não ser perfeitos e sabem pedir desculpa. Os anjos não anseiam nada. A sua felicidade é a surpresa. Os anjos não são vozes supremas, escolhedoras de bonitas palavras em instantes de mágoa. Fazem de cada palavra uma ocasião para um gesto. Os anjos não são quem apenas sabe sorrir. Também eles provam o sentimento da traição e da perda. Os anjos não guardam ressentimentos. Fortalecem a sua personalidade com as memórias dos seus dissabores. Os anjos respiram o mesmo ar de todos nós. Todos podemos ser anjos, ainda que não o saibamos. Os anjos são raros, mas existem. Resta-nos saber encontrá-los.

21/11/13

A mim, me prometo.

Olho para trás e atento nos únicos passos que os meus olhos conseguem alcançar. Os meus passos. Olho para o lado, para um e para outro. É a minha sombra que preenche esse espaço. Não é a sombra de mais ninguém, mas apenas a minha sombra. Olho-me ao espelho. Reflicto-me da mesma maneira de sempre. Se sou o mesmo de sempre, porque olho eu para trás e vejo apenas os meus passos? Se sou o mesmo de sempre, porque olho eu para o lado e apenas vislumbro a minha sombra? Estará, quiçá, escrito nalgum sítio que assim tem que ser. No meio de tudo o que vivi, debati-me por três coisas perfeitamente identificáveis. Vontades, Acções e Palavras. E neste mundo repleto de vontades ocultas ou desconexas, acções momentâneas e hipócritas e de palavras nem sempre sentidas, vejo-me hoje como alguém que, finalmente, sucumbira à obsessão irracional de um eterno desejo de estar em paz consigo próprio, com as almas alheias, com o diabo e, se necessário, com todos os seres mais infinitesimais desta vida. Diz respeito ao Carácter aquela parcela ínfima das nossas decisões cuja opção recai sobre um vinculativo “não”. Reside na nossa personalidade o instinto que nos permite compreender a linha a partir da qual deixámos de ser inteligentes para passarmos a ser apenas mais uns bananas de primeira classe que pisam este solo. Tendo em conta que primo, e muito, pela minha inteligência, deixo prometer-me a mim mesmo que tudo farei para incutir nas densas fibras desta massa cinzenta, aquele quê de frio pragmatismo que me faltou em alguns instantes. Poder-se-á naturalmente colocar a questão se ainda vou a tempo. Verei. Talvez sim, talvez não. Certezas, poucas tenho. Tirando uma. Estarei tranquilamente erguido até ao dia em que o peso de uma acção que não senti me derrubar.

Palavras Sentidas

Nem tudo são rosas.
Nem o sorrir,
Nem o chorar.
Nem mesmo a loucura
Que é pensar.

Não conheço coisa mais sincera
Que uma mera palavra.
E as raridades onde me iludi,
Creio, ainda hoje,
Terem sido gestos que nunca percebi.

Coloco em causa
Toda a sinceridade dos gestos.
Arrepia-me a mesquinhez
De quem se vê no alto
Por desconhecer o que é a sensatez.

Talvez tudo fosse mais simples
Se ouvíssemos as palavras.
As que já ouvimos,
Até as que julgámos perdidas.
Todas elas, palavras sentidas.

28/08/12